Equipe econômica adota ‘voto de silêncio’ pela Previdência

Com a aproximação da votação da reforma da Previdência pela Câmara dos Deputados, prevista para ocorrer nas próximas duas a três semanas, a equipe econômica adotou uma espécie de “voto de silêncio” em relação às medidas que o governo pretende anunciar assim que a questão for apreciada pelo plenário. O objetivo é evitar “marolas” que possam gerar defecções entre os parlamentares favoráveis à reforma, com a divulgação antecipada de projetos alinhavados pelo ministro Paulo Guedes. Uma cautela especial é dedicada às medidas que geram mais resistência no Congresso, como a abertura econômica, temida por setores da indústria e do agronegócio, e a privatização, que já é alvo de frentes parlamentares formadas nas últimas semanas, com até 200 deputados. Guedes e seu pessoal acreditam que a reforma da Previdência deverá ser aprovada pelos deputados, mas por uma margem estreita. Neste cenário, qualquer defecção poderá colocar em risco o esforço empreendido nos últimos meses para viabilizar a aprovação. Paira sobre a cúpula da economia o fantasma da rejeição da reforma pela Câmara no governo Fernando Henrique, quando foi recusada por apenas um voto, com a ausência do deputado Antônio Kandir, que apoiava a proposta, da votação. Na semana passada, durante audiência na Comissão de Finanças e Tributação da Câmara, Guedes até apresentou as linhas gerais das propostas que vêm por aí, mas evitou entrar em detalhes. Segundo seus auxiliares, o ministro fica particularmente ansioso por divulgar as medidas ao ouvir que o presidente Jair Bolsonaro “não tem plano de governo”. Muitas vezes, ele parece deixar a ansiedade aflorar e chega a avaliar a antecipação do anúncio das propostas, mas é contido por sua equipe sob o argumento de que isso colocaria em xeque a estratégia montada para aprovar as novas regras da Previdência. A percepção no ministério da Economia é de que, apesar das possíveis resistências de grupos parlamentares, “há convergência” em relação à agenda econômica, ao contrário do que acontece com a pauta do governo nas áreas de costumes, como a flexibilização da posse e do porte de armas, e de meio ambiente. A ideia é tentar “blindar” a pauta econômica, para tirar o País do atoleiro em que se encontra, e deixar o Congresso “quebrar o pau” nas questões mais polêmicas, caras ao núcleo mais ideológico que apoia Bolsonaro. A estratégia para conseguir a blindagem é “tentar compartimentar” os ruídos gerados pela agenda comportamental, com o isolamento da ala mais radical do bolsonarismo, formada pelo grupo ligado ao escritor Olavo de Carvalho, que, apesar de ruidosa, de acordo com auxiliares de Guedes, representa apenas uma pequena parte dos eleitores de Bolsonaro.

Estadão

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